Capô de fusca

Volto ao editor de textos para escrever uma curiosa passagem que se deu em um clube coirmão de nosso amado Riachuelo. Certamente que a repetição da história verbalmente de narrador em narrador a deforma, faz ganhar parágrafos que não havia no original, perdem-se detalhes que são esquecidos. Contudo é importante registrar para que esta saborosa gafe não desapareça para a posteridade, pode servir de lição para os mais novos.

Mulheres no remo ainda são poucas, o argumento que as assusta é o perigo de se tornarem musculosas, aquelas coisas marombadas, pavor de se tornarem parecidas com transexuais, as falsas fêmeas com corpo de Schwartzenegger, vagina de bisturi, voz grossa e aquele indiscreto pomo de Adão. Posso assegurar às leitoras que tenham curiosidade de saber como é a prática do nosso esporte que ele requer: um pouco de vigor físico, coordenação motora e amor à vida ao ar livre. Quanto ao físico, o remo faz exatamente o oposto do que temem, ajuda a modelar um corpo elegante, queima gorduras postergando as temidas celulites e melhora o desempenho cardiovascular. Lembrem-se que aquelas bolinhas de sebo sob a pele aparecerão irremediavelmente, mas pode-se procrastinar por muitos anos. Não há mulher bela para sempre, nem homem viril com noventa anos, exceto quando se trata de velho mentiroso. Voltando ao tema da beleza, temos várias moças remando no Riachuelo e seus corpos ficaram ainda mais belos com a prática.

Mas eu dizia que são poucas e, por conta dessa raridade, nós as tratamos como joias raras. Uma dessas moças que aqui chegaram em busca do esporte era guapa, tinha cerca de treze anos, mas era desenvolvida para sua idade e despertava os olhares cobiçosos de muitos remadores, mesmo daqueles que já haviam passado da adolescência, pois não imaginavam quantos anos aquela diva teria.

Ela se dedicava aos treinamentos no Clube Náutico Francisco Martinelli com vontade e mostrava raro talento, tanto pelo empenho, quanto pelo vigor físico. Era uma promessa, um diamante bruto a ser lapidado, poderia se destacar no cenário desportivo nacional, quiçá além-fronteiras. Constatada a possibilidade de termos uma virtuosa atleta, os dirigentes passaram a cuidar da moça, proporcionando-lhe o melhor ambiente possível, isso significava maior atenção do treinador e direito a usar barcos de melhor qualidade, normalmente reservados aos expoentes. Sobrava um pequeno problema para as regatas, visto que o clube não tinha uniformes perfeitamente adequados para mulheres, tudo o que se dispunha para competição havia sido pensado para homens. Então aqueles hábeis dirigentes puseram mãos à obra.

Nossos cartolas do remo são pessoas de comportamento cortês, gostam de se cumprimentar com formalidades, o que significa dizer que são polidos, contudo eu nem sempre classifico o gosto deles como refinado. Pois esses senhores deram uma desmunhecada e se propuseram a atuar como estilistas desenhando o fardamento que a futura estrela usaria: uma bermuda colante de Lycra branca com uma camiseta nas cores vermelha e preta tradicionais do Martinelli. Inacreditavelmente eles acertaram, ficou belo e funcional para o remo.

Veio então a estreia dela numa prova de esquife. Havia muita expectativa dos demais atletas em ver o desempenho da formosa remadora, ansiedade por parte de sua família, grande otimismo dos seus dirigentes. A estreante venceu de maneira convincente.

Saboreou o triunfo saudando o público e lentamente fez o percurso desde a meta até a praia, normalmente fedida pelo lançamento de algum esgoto clandestino, onde um grupo de remadores aguardava para a comemoração tradicional. Ela nem teve tempo de se preparar, várias mãos a seguraram com avidez e malícia quando tentava sair do esquife e a lançaram na água. Em minha opinião este tipo de atitude deveria estar banida, dadas as precárias condições de balneabilidade de nossas águas. É uma ameaça à saúde de nossos atletas, tanto quanto os perigosos morteiros que espocam nas chegadas.

Havia muita gente na faixa de areia que aplaudia e observava a cena, alguns marmanjos com expressão de lobo mau desejando chapeuzinho vermelho e preto. Babando. A moça com a roupa molhada ficou provocante, principalmente pela bermuda que ganhou insinuante e discreta transparência, mostrando claramente uma mancha escura onde estariam seus pelos pubianos.

Um daqueles sequiosos atletas que observavam com a saliva correndo pelo canto da boca, que era conhecido entre nós como Tião Maia, não se conteve e comentou com um cidadão que estava ao seu lado:

- “Olha só que tesão de guria! Tem um matagal ali, em cima de uma coisa linda e grande que parece até um capô de fusca!”

O ouvinte, sem demonstrar nenhuma forma de emoção, ou de excitamento com o comentário, respondeu:

- “Obrigado pelo elogio, ela é minha filha.”

O tempo passou, a guapa se desligou do Martinelli e se chegou com seu irmão ao nosso venerável Clube Náutico Riachuelo. Diz a lenda que o motivo foi uma reivindicação não atendida de uma pequena contribuição para seu transporte desde sua casa até o parque náutico, um simples vale-transporte, que lhe foi negado. Importante reivindicação, contaram-me que ela era de família humilde.

Sei não, mas acho que há coisas que não me foram bem relatadas. Ou ficaram faltantes. De qualquer modo, pode-se dizer que se formou um veículo híbrido: capô de fusca em carroceria de Mercedes.

E duzentos remadores querendo uma carona.

Moacir Henrique de Andrade Carqueja
moacircarqueja@gmail.com

Comments are closed.