Brigas de trânsito

Temos dois veteranos remadores que são um o oposto do outro. Há uma razoável diferença de idade entre eles, eu creio que o Cunha seja uns vinte anos mais velho do que o Metoca. Cunha é baixinho, brigão, quando não está discutindo com alguém acho que sente um vazio na alma. E para passar de uma simples discussão a dar um tapa em algum desafeto ocasional basta que esteja ao alcance da mão. Já foi até suspenso do clube por bater num adolescente. Apesar deste temperamento explosivo, tem um coração enorme e é capaz de fazer coisas delicadíssimas. Conta-se que certa ocasião ele levou um remador do nosso amado Riachuelo para fazer exames médicos em São Paulo às suas expensas. Pagou tudo, das passagens e estadias aos honorários médicos. Contrariando o que se diz aos quatro ventos, sua agressividade é por temperamento, não por más companhias, já que teve educação esmerada; filho de mãe inglesa aprendeu, dentre muitas coisas, detalhes de etiqueta à mesa e come com pose de lorde. Já Metoca é bonachão, brincalhão, totalmente irreverente, é difícil que alguém o veja sem que esteja sorrindo. E é raro que algum remador chegue ao clube quando ele esteja presente que não seja alvo de alguma forma de brincadeira. Ele é grande, tanto para cima como para os lados. Cumpriu o serviço militar naquele tempo que a Polícia do Exército levava os catarinenses para o Rio por serem altos e disciplinados. Dizem que apertou muitas empregadas da Tijuca nos relvados do Alto da Boa Vista. Comprava-se o Jornal do Brasil de domingo, que tinha umas cem páginas, dava para forrar o pasto com uma espessa cama de papel e sobrava para higienizar as partes, e tomava-se o bonde. Depois era encontrar um canto tranquilo deitar e rolar. Ele tem muito mais coisas a contar daquele período de caserna que eu não me proponho a escrever para não perder o amigo. Nem ser processado por infâmia.

Ambos relatam histórias vividas em Floripa de outras eras, quando a cidade era menor, mais pacata, porém o povo era muito chegado a uma confusão, nunca fui a baile no Lira ou no Doze, os clubes mais importantes daquele tempo, que não rolasse alguma porrada entre seus dóceis associados.

A primeira confusão que relato aconteceu com o pequeno Cunha.

Era no tempo que o Palácio Cruz e Souza ainda era usado como sede do executivo estadual, o trânsito da cidade era mais lento e os pedestres não eram respeitados como hoje, se é que o são. Todas as ruas em torno da Praça XV eram pavimentadas com paralelepípedos, um desafio às mulheres que desfilavam com saltos altos, piso agitador de latarias que revelavam nuvens de gafanhotos, ou melhor, de grilos nos carros de então.

Pois o Cunha atravessava a rua naquela esquina que tem o palácio num canto e a Catedral Metropolitana com sua escadaria na diagonal oposta, quando um veículo freou muito próximo de nosso remador com estridente buzinada. A adrenalina entrou no metabolismo do baixinho e provocou a reação costumeira.

- “Filho de uma operária do amor que está na num bordel da Vila Palmira! Homo afetivo! ” (já estou detratando com as novas regras de politicamente correto).

Conto como me contaram, dizendo que o incidente foi narrado pelo próprio protagonista. Não vi, não conheço quem viu, mas imagino a cena com o pequeno Cunha esbravejando, apontando dedo e discursando impropérios ao motorista sacana. Ele diz que se aproximou da janela do condutor que a abriu lentamente. Naqueles carros ainda não havia o conforto de vidros com comando elétrico, a lâmina de vidro escorregava à medida que a manivela ia girando na mão paciente do motorista. Quando o espaço vazio foi suficiente nosso pigmeu remador desferiu potente golpe de punho fechado na fachada principal do choffeur. E se afastou para ver o que aconteceria.

- “Eu vi o cara abrir a porta e sair do carro, era grande, muito maior do que eu.”

Essas são palavras que ele ainda usa, mas, na medida em que o adversário se avolumava à sua frente, menor era sua disposição para o confronto e ele, com um imaginário rabo entre as pernas, deu no pé. Mas nem isso seria suficiente para escapar de uma surra, o perseguidor era rápido. Também rápido no pensamento era o baixinho, que para se livrar de uma pública e vexaminosa tunda (essa palavra é daquele tempo), entrou no palácio e se agarrou à sentinela postada na porta de entrada:

- “Não deixa esse louco me bater!”

O outro incidente aconteceu no bairro da Carvoeira. Metoca cursava a universidade e havia uma disciplina, obrigatória para todos os cursos, que se denominava Prática Desportiva e que se dividia em várias modalidades, ele escolhera judô. Naquela tarde fatídica ele se preparou para a aula, vestindo seu quimono novíssimo, alvo por nunca ter sido usado, com sua faixa branca amarrada na cintura.

Para bom entendedor meia palavra basta, mas para o idiota apavorado um afago parece um tabefe. A faixa branca indica um novato, alguém que está aprendendo rudimentos do esporte, no caso do judô é aprender e treinar a cair para não se machucar. Um indivíduo desinformado não sabe disso e o uniforme, mesmo sendo inaugurado, pode representar uma ameaça à sua integridade física, se tiver intenção de confronto.

Foi assim otimista que saiu de casa e embarcou no seu Karmann-Ghia com motorzinho de 1192 cm3 (nominal 1200) com 30 CV de potência. Era um carro com desenho esportivo, mas com motor adequado a uma boa motocicleta. Era moda dirigir com o banco deitado, todos os brasileiros de classe média sonhavam ser pilotos como o Emerson Fittipaldi, que tocava sua Lotus apenas com o capacete de fora.

Lá ia feliz o colossal Metoca pela estrada que passa pela Ponta Zé Mendes e depois viraria à esquerda para subir a impressionante ladeira que une o Saco dos Limões à UFSC. Sua caranga, como se dizia naquele tempo em que éramos jovens, se arrastava morro acima tendo um potente Dodge Charger na sua traseira que não conseguia espaço para ultrapassar. O judoca nem se preocupava com o retrovisor, seguia distraído pensando nas regatas e na sua estreia no tatame.

O motorista de trás irritou-se imaginando que aquele marcha-lenta estivesse de sacanagem, bloqueando sua passagem e trafegando devagar de propósito. Passado o topo da lomba ele o ultrapassou e deu-lhe violenta fechada impedindo a passagem do Karmann-Ghia. Ato contínuo desembarcou com nítido propósito de cair na porrada com nosso remador bonachão. Metoca é calmo, porém não é bobo e percebeu a intenção do desafiante. Abriu sua porta com tranquilidade enquanto o outro motorista se aproximava com expressão de ódio.

Agora especulo com a realidade. Venha comigo leitor, imagine a mudança de atitude do desafiante para um duelo a punhos quando começou a ver que daquele carro baixinho, de onde antes só se via um pedaço do crânio do motorista, que ele julgava quase um anão, começava a sair um gigante. Quase que simultaneamente Metoca terminava de sair do carro quando o outro chegava. E estava fardado de lutador. Não importava o que pudesse ser aquele quimono, poderia ser o de um carateca, ou de outra arte marcial, fosse o que fosse seria uma parada dura, além disso, o sujeito era enorme! Imediatamente adotou um tom conciliador:

- “Amigo, eu pensei que você estivesse de sacanagem comigo, mas já percebi que eu tinha me enganado. Desculpe, foi só um mal-entendido.”

Moacir Henrique de Andrade Carqueja
moacircarqueja@gmail.com

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