Siri motivador

Estevão sempre usa na sua empresa a frase: “às vezes é preciso uma mordida de siri no pé para obrigar as pessoas fazerem o que pensam que não sabem”. O verdadeiro significado vem de mais uma história do nosso Riachuelo.

Há que se voltar no tempo, quando o protagonista ainda era estudante, um jovem remador alto e forte, embora esguio de linhas, quando era uma das esperanças do clube. Um futuro campeão.

Pois certo dia ele saiu para um treino de esquife para as bandas do sul.

Para quem não é conhecedor do esporte, devo descrever o barco. O esquife é do tipo outrigger, isto é, estreito em que a forqueta que segura o remo fixa-se em braços fora do casco. Tais barcos são esbeltos e instáveis, têm o fundo arredondado e só permanecem de pé, se é que barco fica assim, mas não encontro expressão melhor, com o apoio que os remos fazem na água. Ah, importante, rema-se sentado num carrinho e de costas para o objetivo.

A primeira lição para remar um esquife é aprender entrar no barco. Se o indivíduo não souber pode quebrar o casco fino pisando no fundo, ou virando. É preciso que com uma das mãos se segurem os dois remos simultaneamente para fazer o equilíbrio e apoia-se com a outra se na borda. Uma vez sentado no carrinho colocam-se os punhos dos remos sob os sovacos (remador tem sovaco, axila é coisa de boiola) para liberar as mãos e ajustar os finca-pés.

Estevão também gosta de dizer que remo é esporte de macho verdadeiro, pois o atleta senta no duro, segura num punho grosso e roliço e anda de costas para o objetivo, sem perder a masculinidade.

E ele passou pela Ilha das Vinhas e pôs proa para os lados do Saco dos Limões, empolgado. Fazia as regulares viradas de pescoço para identificar os possíveis obstáculos e seguia com sua prazerosa tortura. Todo exerciciólatra sabe disso. É tormento misturado ao prazer. Estava se aproximando da praia, próximo ao armazém Vieira, quando fez uma avaliação de distância. Seriam dez remadas fortes antes de abortar a puxada e fazer a volta.

A famosa Lady Murphy não perdoa: se alguma coisa pode dar errado, vai dar. E deu. É muito comum avaliar mal essa distância a ser percorrida com remadas fortes. Inúmeras regatas já foram perdidas assim, tanto por parar antes da meta, como por demorar a iniciar a volada final.

Estevão puxou com força respirando duas vezes em cada remada, contando mentalmente. A pulsação sobe rápido para níveis quase insuportáveis; sendo de jovem, o coração passa de duzentos pulos por minuto, um bumbo batendo dentro do peito sacudindo toda a carcaça do remador. Isso é tão notório que não se precisa apertar pulso ou jugular para fazer a contagem, o indivíduo sente, até ouve.

Curtia a vertigem da velocidade e imaginava uma chegada para se motivar, conseguia vislumbrar a plateia, a namorada que hoje é mãe de seus filhos, até o Ixtevo-mo-pai (como chama carinhosamente ao pai homônimo) vibrando. Para manter o rumo fixava a popa em algum ponto fixo no horizonte e cuidava das manchas dos remos deixadas na superfície lisa da baía.

Um, dois, três, quatro… Tem que saber dosar o esforço para não apagar antes, e para não sobrar energia. Tem que aprender a descobrir o ponto certo que dá o máximo rendimento, morrer na última remada. Avalia como se sente, escuta os imaginários gritos dos assistentes e puxa mais um. Até os berros desesperados do treinador Pezinho passam pela mente:

- Vamo! Dá tudo, Ixtêvo! Dá-lhe! Enfia os pés! Porrada n’água!

Cinco, respira fundo e sente que o ar não lhe basta, encolhe as pernas e arrasta o carrinho até que os joelhos se dobrem e se encostem ao peito, expira e inspira num átimo e recomeça o movimento que se faz inconsciente, exercitado milhares de vezes: gira os punhos da palamenta e crava as pás na água, estica as pernas, retesa os músculos dos braços e dos ombros, depois inclina o tronco levemente para trás e finalmente puxa os braços, quando gira os punhos novamente para retirar o remo da água. Mantém um ritmo de mais de quarenta remadas por minuto e o esquife se desloca como uma faca cortando a água sem praticamente levantar marolas.

Seis, a mesma coisa, só que mais pesado um pouquinho, sete, faltam três, sete… Paft!

O barco para de forma imprevisível e o remador de quase oitenta quilos continua. Segue sentado no carrinho até o fim do curso, que também se detém, e o corpo continua, agora com movimento de cambalhota para trás. E leva o caldo. Não entendeu como, mas caiu de pé.

A água fria rapidamente traz clareza à mente. “Bati em alguma coisa”. Levanta a cabeça gotejante de suor, o peita arfa clamando por oxigênio, e examina a provável avaria na proa do esquife. Está danificada, mas não é de importância, dá até para enganar Pezinho e não contar da barbeiragem. Procura o obstáculo e descobre uma canoa de pescador ancorada com a borda perfurada pelo impacto. Uma sorte que esteja um pouco putrefata. Estava mais mole do que o delicado casco do barco de competição.

Agora havia um problema, com a água acima da cintura era quase impossível subir no esquife. E havia que fugir dali antes que algum dono de canoa avariada aparecesse para reclamar o custeio do reparo, danos morais e lucros cessantes por ter o equipamento de pesca parado. Ir à praia chamaria a atenção. Havia que ser ali mesmo, fugir como quem furtou, mas como?

Então Poseidon fez o favor e mandou uma ajuda impensável. Comandou uma tropa de crustáceos para assediar o remador. O primeiro siri mordeu bem no dedinho do pé esquerdo desencadeando dor e uma torrente de adrenalina no corpo cansado. Foi o bastante. Seu depoimento é fantástico:

- Moacir, eu até hoje não sei como caí, nem como subi no barco, juro. Mas eu sei que subi e que foi muito rápido.

Sempre que na Engenho Engenharia as metas não são atingidas, ele convoca os empregados para uma reunião, todos descalços, e solta um siri.

Moacir Henrique de Andrade Carqueja
moacircarqueja@gmail.com

 

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